Oportunismo de Prudente sobre o BRB abandona Celina e mira 2026
Quadro do MDB-DF que sustentou a chapa governista volta-se contra a governadora que herdou o passivo do banco do próprio grupo, em movimento alinhado ao calendário eleitoral
O deputado federal Rafael Prudente (MDB) lançou nas redes sociais um vídeo de pouco menos de dois minutos vestido de análise técnica do BRB. A peça segue cartilha conhecida na política distrital. Tom institucional, voz controlada, frase de abertura cuidadosa. No conteúdo, retórica de palanque com a fatura endereçada à governadora Celina Leão, que herdou o passivo do banco do mesmo grupo político ao qual o parlamentar pertence. O vídeo não é análise. É movimento.
A peça merece leitura em três planos. O primeiro é o que ela diz. O segundo é o que ela esconde. O terceiro é o que ela revela sobre quem assina.
O aliado que virou cobrador
Quem acompanha o Distrito Federal sabe que a chapa governista de 2022 reuniu MDB e PP em torno do então governador Ibaneis Rocha e da então vice Celina. Prudente é do grupo do ex-governador. Sustentou a composição que levou o bloco ao Buriti, integrou a base parlamentar e participou da articulação política que viabilizou indicações em postos estratégicos durante o mandato. A chegada de Celina à cadeira principal seguiu a lógica acordada pelo próprio grupo do qual o deputado faz parte.
Não houve afastamento formal, não houve dissidência anunciada, não houve declaração de oposição. Houve, sim, a publicação de um vídeo que coloca a governadora no banco dos réus de uma operação que ela não construiu. O tom do parlamentar é de quem nunca apertou a mão de aliado para chegar a lugar nenhum. A guinada chama atenção porque é silenciosa, sem comunicado, sem explicação. Apenas a câmera ligada e o roteiro pronto.
A pergunta que sobra é direta. Quando foi que o aliado virou cobrador?
A planilha incompleta
A conta apresentada por Prudente merece um teste de coerência. O parlamentar afirma que o BRB gera cinquenta milhões de reais por ano em lucro para os cofres do GDF e que a proposta de recuperação financeira chega a seis bilhões de reais ao longo de quinze anos, valor que sobe para mais de dezessete bilhões com juros incidentes. A pergunta encerra a peça: quem vai pagar essa conta?
A construção retórica é eficiente. A construção contábil, não.
Comparar o lucro anual repassado ao GDF com o custo nominal da reestruturação é o equivalente a julgar a saúde de uma família apenas pelo extrato bancário do mês. Falta o patrimônio. Falta o ativo intangível. Falta o custo de oportunidade da quebra. Falta a função estratégica de uma instituição financeira pública para a operação do próprio GDF, da folha do servidor à concessão de crédito subsidiado em programas sociais.
Falta, sobretudo, a linha do tempo. O BRB não desabou em maio. As operações que produziram a situação atual, incluindo a exposição contestada ao Banco Master, foram montadas durante o governo do antecessor de Celina. Os indicados na presidência da instituição naquele período responderam à direção do palácio. O palácio era de gente do MDB. O nome de Ibaneis é o que não aparece no vídeo. Por opção.
O que Celina entregou
A governadora ficou com o passivo no colo e fez a parte que cabia ao palácio. Operou a articulação com o STF, conduziu a negociação que culminou na homologação do acordo de recuperação, manteve a folha do servidor em dia ao longo da crise, evitou o corte abrupto de serviços e preservou a continuidade institucional do banco. Não escolheu o caminho fácil do confronto político com o grupo que a indicou para a vice. Optou por entregar resultado.
A entrega não é trivial. Transformar herança problemática em saída negociada exige articulação com Brasília, com o sistema financeiro nacional, com a Procuradoria-Geral da República e com a equipe do banco. Celina trabalhou nos quatro flancos sem produzir ruído desnecessário. O resultado está na homologação do acordo, no funcionamento do banco e na folha em dia. Em política, entregar resultado costuma valer mais que produzir vídeo.
A defesa implícita
A peça do parlamentar se apresenta como pedido de transparência e termina como apologia velada da privatização. O portal Tudo Ok Notícias registrou que Prudente tem defendido intervenção e venda do banco. A leitura combinada com o tom do vídeo deixa o subentendido em alto-falante. Recuperar o BRB é caro, perigoso, vai prejudicar o servidor. A solução que sobra na conta do deputado é a saída do controle estatal.
Convém lembrar que a defesa pública de privatização do BRB é posição de minoria dentro do próprio MDB-DF. O Vero Notícias registrou que a crise no partido respinga em apadrinhados do deputado em diferentes pastas. O Misto Brasil confirmou que a fala pública do parlamentar voltou-se contra a governadora no episódio do acordo. A soma dos movimentos compõe agenda. Não há análise técnica isolada quando há disputa política aberta.
A leitura honesta
A defesa do erário cabe ao debate público. A defesa do servidor também cabe. O que não cabe é o aliado do grupo que produziu o problema reaparecer com voz institucional para cobrar a sucessora pela operação que ele próprio ajudou a sustentar enquanto era montada. A coerência mínima exige começar a conversa pela origem do passivo.
Celina Leão entregou o acordo. Rafael Prudente entregou um vídeo. Entre as duas entregas, a diferença mostra quem está, hoje, comprometido com a solução do BRB. E quem está olhando para 2026 antes de olhar para a realidade do banco.