BID: mercado de trabalho da América Latina avança sem transformar a renda
Relatório aponta que o rendimento real cresceu 18% em 30 anos na região, contra 30% nos países da OCDE, e que 46% da força de trabalho está em ocupações precárias
O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) divulgou na segunda-feira (3) um relatório que descreve o mercado de trabalho da América Latina como estagnado. Em três décadas, o rendimento real do trabalhador da região cresceu 18%, enquanto o avanço nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) foi de 30% no mesmo período.
O documento resume o diagnóstico em uma expressão: "progresso sem transformação: avanços lentos, pontuais e incapazes de aproximar os países latino-americanos do padrão das economias desenvolvidas".
Os números que sustentam o diagnóstico
O indicador mais duro do estudo é o de produtividade. Segundo o BID, são necessários quatro trabalhadores na América Latina para gerar o valor produzido por um trabalhador nos Estados Unidos.
- 46% da força de trabalho está em atividade autônoma ou em microempresas precárias
- 28% ocupam empregos formais com contrato estável
- Quase metade dos trabalhadores não tem acesso a aposentadoria, seguro-desemprego ou auxílio-doença
- No ritmo atual, a região levaria 80 anos para alcançar o nível de formalidade do Uruguai
A projeção dos 80 anos é o dado que melhor traduz a tese central do relatório. Não se trata de retrocesso, e sim de um avanço lento demais para fechar a distância em relação às economias desenvolvidas dentro de uma geração.
O que isso significa para o trabalhador brasileiro
O Brasil é o maior mercado de trabalho da região e carrega as duas características apontadas pelo estudo. A taxa de informalidade nacional se mantém em patamar elevado desde a recuperação pós-pandemia, e boa parte da criação recente de ocupações vem de trabalho por conta própria, aplicativos e microempreendedorismo individual.
A ausência de proteção social é o efeito prático mais direto. Trabalhador sem contrato formal não acumula tempo de contribuição de forma automática, não acessa seguro-desemprego e depende de contribuição própria para manter cobertura previdenciária. Quando a renda cai, a rede que deveria amparar não existe.
No Distrito Federal, o quadro tem uma particularidade. A capital combina a maior renda média do país, puxada pelo funcionalismo público federal, com regiões administrativas onde a informalidade e a ocupação por conta própria pesam muito mais do que a média local sugere. A distância entre o Plano Piloto e as cidades do entorno reproduz, em escala metropolitana, a desigualdade que o BID descreve entre países.
O relatório não traz recomendação única de política pública. O banco aponta a produtividade como gargalo central e associa o baixo crescimento da renda à combinação de qualificação insuficiente, informalidade persistente e baixo investimento em capital produtivo.
Por que a produtividade trava a renda
A relação entre os dois indicadores é o eixo do estudo. Salário sustentável no longo prazo depende do valor que cada hora trabalhada gera. Quando a produtividade cresce pouco, o aumento de renda vira disputa distributiva de curto prazo, sensível a inflação e a ciclo econômico, em vez de ganho estrutural.
Três fatores citados pelo BID explicam a estagnação regional. O primeiro é a concentração de trabalhadores em atividades de baixo valor agregado, como comércio de rua e serviços pessoais sem escala. O segundo é o tamanho das unidades produtivas: microempresas com um ou dois ocupados não conseguem investir em máquina, software ou treinamento. O terceiro é a rotatividade, que encurta o tempo de permanência no posto e reduz o retorno de qualquer investimento em qualificação.
Reduzir a distância para os países desenvolvidos, na leitura do banco, exige atuar nos três ao mesmo tempo. Programa de qualificação isolado não move o indicador se o trabalhador continuar em ocupação que não demanda a nova competência.
O estudo faz parte da série de análises do BID sobre desenvolvimento na América Latina e no Caribe e cobre o conjunto dos países da região, com comparações recorrentes entre economias latino-americanas e membros da OCDE.